A pessoa ostomizada frequentemente tem problemas relacionados com a disfunção e desfiguração causada pela presença de um estoma. O conceito de estomaterapia surge com a necessidade de cuidados específicos e especializados ...
Madalena Van Zeller **
A pessoa ostomizada frequentemente tem problemas relacionados com a disfunção e desfiguração causada pela presença de um estoma. O conceito de estomaterapia surge com a necessidade de cuidados específicos e especializados que o ostomizado requer e a sua importância reside na problemática que o ostomizado apresenta. A finalidade da estomaterapia é proporcionar ao ostomizado a obtenção de uma melhor qualidade de vida, tendo em conta a sua globalidade física, psíquica e social. Os cuidados prestados devem estar integrados na globalidade dos cuidados de enfermagem aos níveis primário, secundário e terciário.
O ostomizado/família necessitam: Informação específica, simples e pormenorizada; Adaptação à sua nova imagem corporal, através de uma participação activa no seu processo de doença; Educação para a saúde tendo em consideração o auto-cuidado e as actividades de vida diárias; Orientação para a selecção e uso racional do dispositivo e material acessório; Esclarecimento de procedimentos e acessibilidades para o usufruto dos direitos que tem pelo facto de ser ostomizado; Informação sobre os métodos de continência, dependendo da localização do estoma e patologia do doente. O enfermeiro estomaterapeuta tem um papel importante na reabilitação do ostomizado, bem como na visibilidade que imprime ao seu trabalho, através da análise e publicação de resultados. Contrariamente ao que muitos profissionais e leigos possam pensar, o enfermeiro estomaterapeuta, não é o enfermeiro do saco e a consulta de estomaterapia em nada se assemelha com estomatologia, ou com distribuição de dispositivos.
As funções do enfermeiro estomaterapeuta são: assistencial, docente, administrativa e de investigação. Estas funções devem desenvolver-se no sentido de fazer suprir as principais necessidades do ostomizado, que, segundo Milla Zanón – 1993, são cinco: necessidade de informação, de aconselhamento, de segurança, de actualização sobre os dispositivos e produtos existentes no mercado, de conservação e melhoria da qualidade de vida. Segundo a experiência da autora, a pessoa ostomizada ou em vias de o ser, conseguirá ter as suas necessidades satisfeitas se tiver a sorte de ser seguida numa consulta de estomaterapia. Esta consulta em Portugal ainda é escassa. Ao longo do Pais, existem grandes hospitais onde se fazem cirurgias abdominais das quais resultam estomas e onde não existe consulta de estomaterapia.
Refiram-se como exemplo: Na região Norte: O Centro Hospitalar de Gaia, o Hospital Distrital de Bragança; Na região Centro: O Centro Hospitalar da Cova da Beira; Na região Sul: O Centro Hospitalar de Lisboa Norte, Ocidental e Oriental, o Hospital Fernando Fonseca (Amadora-Sintra), o Hospital Distrital de Portalegre, o Hospital do Espírito Santo de Évora EPE, o Hospital de Faro EPE. Esta realidade é lastimável, quer para o ostomizado quer para o estomaterapeuta. Estudos revelam que a organização e funcionamento da consulta de estomaterapia permite a continuidade dos cuidados prestados ao ostomizado, aspecto fundamental para facilitar a reinserção sócio-famíliar, possibilitar maior informação, autonomia e independência, contribuir para a melhoria da sua qualidade de vida.
A existência das consultas de estomaterapia resulta frequentemente de projectos individuais de enfermeiros, que uma vez apresentados às administrações hospitalares, as conseguiram sensibilizar para a problemática do ostomizado, bem como para as vantagens que quer a instituição quer o ostomizado podem usufruir com o seu funcionamento. No projecto para a existência e funcionamento da consulta de estomaterapia, é necessário definir a estrutura organizacional, através da definição do organograma e cronograma, dos recursos humanos, financeiros e materiais, das normas, rotinas e procedimentos. As actividades desenvolvidas na consulta de estomaterapia, como aqui tentámos demonstrar, vão muito para além da entrega de dispositivos, que é feita inicialmente até o ostomizado seleccionar o dispositivo que deseja utilizar.
Na consulta transmite-se informação específica e esclarecem-se duvidas, faz-se ensino e treino para o autocuidado, presta-se apoio físico e emocional, faz-se prevenção e tratamento de complicações, encaminha-se o ostomizado para outras áreas sempre que necessário, etc. O papel do enfermeiro estomaterapeuta é abrangente e não redutor. Em poucas áreas de intervenção da enfermagem, estamos perante uma inter-acção enfermeiro doente que tanto necessita estar simultaneamente padronizada e personalizada em função do doente.
** Enfermeira Estomoterapeuta Hospital de Vila Franca de Xira
Segunda-feira, 21 de Dezembro de 2009