Câmara Municipal do Barreiro
Núcleo de Voluntariado - Liga dos Amigos do Hospital Distrital do Barreiro
Instituição agraciada com a Medalha de
Mérito Municipal Prata a 28 de Junho de 2006

HÁ CANCROS E CANCROS, REACÇÕES E REACÇÕES

Ao ler o depoimento de Maria Irene Carvalho, na vossa Newsletter nrº. 34, apeteceu-me também escrever algo sobre uma experiência vivida por mim em 2008, mas sobretudo e essencialmente o vivido por meu marido, o que foi a luta inicial, resignação logo de seguida e a preparação rápida para a morte.

Dra. Aida Ferreira

Ao ler o depoimento de Maria Irene Carvalho, na vossa Newsletter nrº. 34, apeteceu-me também escrever algo sobre uma experiência vivida por mim em 2008, mas sobretudo e essencialmente o vivido por meu marido, o que foi a luta inicial, resignação logo de seguida e a preparação rápida para a morte.
O modo como as pessoas enfrentam determinadas doenças constitui-se como um elemento de reflexão sobre a vida e a morte e por vezes de questionamento pessoal e relacional que conduz ao aperfeiçoamento. 
            No final de Janeiro de 2008, em consulta médica, perante o exame citológico, recebi a notícia de “carcinoma invasivo da mama”. Estava só. Perguntei ao médico o que deveria ser feito. Seria cirurgia e o mais breve possível, após os exames sobre o estado geral, sangue, coração etc…que seriam feitos de imediato. Viu a sua agenda, eu vi a minha e marcou-se para dia 14 de Fevereiro, altura em que não tinha aulas na universidade. O médico olhava-me admirado, talvez esperando lágrimas, lamentos, muitas perguntas. Fiz algumas, como por exemplo se faria uma mastectomia total ou parcial, ao que ele respondeu que seria apenas muito parcial porque o processo estava no início e após a reconstrução dos tecidos nem se notaria os efeitos da cirurgia.
            Vim para casa, informei meu marido, não quis que mais ninguém soubesse. Fui operada, fiz 32 sessões de radioterapia e continuei como se nada se passasse. Saia da radioterapia e ia dar 3 horas de aula ao fim do dia. Nunca faltei entre Março e Julho, nunca chorei, apenas me emocionei quando falei com a minha orientadora de tese de doutoramento e lhe disse que teria de parar a investigação. Tudo o resto foi encarado como mais um problema a enfrentar dos muitos que tenho tido ao longo da vida. Iria cumprir rigorosamente tudo, a partir daí nada dependia de mim. Não liguei propositadamente à terrível doença, o cancro. Era qualquer coisa que tinha de contrariar não lhe dando confiança. Não fazia parte de mim, não o reconhecia, era um intruso que tinha de afastar fazendo tudo o que me prescreviam.
             Diferente foi a situação de meu marido. Pessoa muito saudável, sem vícios, não fumava, não bebia, alimentação seleccionada, desporto toda a vida, corria quase diariamente 60 minutos.
Teve os primeiros sintomas de rouquidão a 25 de Maio, foi ao especialista, colega de faculdade e professor da especialidade, medicou, passados 10 dias a rouquidão continuava foi de imediato à especialista de endocrinologia, também professora Faculdade de Medicina de Lisboa que pediu vários exames, todos com os resultados muito rápidos e a 24 de Junho foi diagnosticado um “carcinoma anaplásico da tiróide”. A 25 de Junho teve novamente consulta de endocrinologia e de Cirurgia para possível intervenção. O cirurgião, considerado dos melhores da especialidade, informou-me que já não ia intervir porque já havia metástases internas, laringe, faringe, traqueia e pulmões. Meu marido teria cerca de um mês de vida, mas o médico cirurgião não teve coragem de o informar desta situação. Iriam fazer tudo para o aliviar e para que ele mantivesse a esperança de viver, mas ia ser difícil porque começariam a surgir sintomas cuja resolução implicaria outras especialidades para aliviar as dores. Assim foi. Para o tranquilizar iniciou-se logo a radioterapia, fez 15 tratamentos, com grande sofrimento, ao 12º. queria desistir não suportava os tecidos “queimados”, não podia engolir nada senão determinados líquidos. Começou em simultâneo a ter crises de falta de ar. As corridas para as urgências do Hospital de Santa Maria, onde foi sempre seguido, foram praticamente diárias e às vezes duas vezes/dia. Alugaram-se aparelhos, que pouco serviram, porque eram necessários outros meios.
A 29 de Julho, colocou uma prótese na traqueia para respirar, cujo efeito só durou cerca de 10 dias, porque o tumor invadiu a prótese. A 10 de Agosto ele próprio disse que tinha de ser internado porque ia ter problemas que não poderiam ser resolvidos em casa. Fomos à urgência de manhã, voltamos para casa e fomos novamente à tarde pela sua insistência. Ficou internado. Logo no dia 11, teve uma crise, ainda à hora da visita, para a qual foram necessários enfermeiros e vários aparelhos como que ele tinha previsto.
No dia seguinte, a 12 de Agosto foi feita a intervenção planeada, para se verificar o estado da prótese, mas teve que ser de urgência devido a nova crise. Já não havia nada a fazer. Ficou nos cuidados intensivos até 22 de Agosto, dia em que faleceu. Estes 10 dias foram de grande sofrimento para quem o acompanhava. Por um lado, os aparelhos faziam-no viver, respirando e alimentando-se, os sedativos tiravam-lhe as dores, o coração forte lutava para o manter vivo, mas por outro lado, já não era a pessoa inteira que estava ali. 
            Interessa sobretudo referir as suas reacções como ser humano. Como médico, ora tinha consciência da sua situação, com expressões como: “estou em linha descendente”, “estou condenado”, “não há nada a fazer” ou, pelo contrário, surgia a esperança: “se isto se ultrapassar…”, “quando melhorar iremos a…ou faremos …”
            A partir de 22 de Julho, depois de uma consulta com o especialista de Otorrino, também professor da Faculdade, e deste lhe explicar objectivamente o que ele se “negava” a ver, assumiu que ia morrer e preparou-se em todos os sentidos para a morte, com muita serenidade. Tratou de assuntos da família com toda a clareza, sem drama. Teve a preocupação de não deixar nada por fazer das tarefas que normalmente assumia. Tudo era feito no momento como se no dia seguinte já pudesse ser tarde.
            Tivemos muitas visitas em casa, de família e amigos. Todos ficavam admirados da serenidade e calma que existia. Conversava-se de tudo, como se a doença não estivesse ali, mesmo presente com toda a sua crueldade. Uma sobrinha minha, disse: “não percebo como se está tão bem aqui em casa, há tanta paz e tranquilidade, sinto-me bem, nem parece que vai alguém morrer daqui a pouco tempo, como é possível estarem assim?”
Outro sobrinho viu o tio a falar tão bem disposto que achou que estava tudo bem, que iria fazer um jantar com a família toda para o tio se sentir bem.
Penso que esta tranquilidade se deveu à fé que tinha. Há anos atrás voltou à igreja católica. Ia quase diariamente à missa, tinha confessor certo. No dia 5 de Agosto quis receber a Santa Unção e quis a minha presença. Estava calmo, com muita fé. Nos dias seguintes até ser internado fomos sempre à missa. Tudo foi falado, desde o cemitério para onde queria ir, (jazigo de família na província), fato e gravata que queria levar, terço benzido pelo Santo Padre, trazido de Roma havia 6 meses.
O funeral foi tratado com todo o carinho e calma. Correu tudo com dignidade. Acredito que ele repousa em paz.
O único senão, é que depois daquela avalanche de sentimentos vividos, propositadamente ignorados, camuflados na sua presença, atirados para o lado, eu e meu filho ainda não recuperámos. É certo que não tivemos férias, mas está a ser difícil readquirir a energia anterior. Quando voltará? O “luto” tem de ser feito, mas é doloroso, triste, apetece não fazer nada, até quando?
Domingo, 22 de Novembro de 2009
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