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A estratificação social por grupos, etários, sociais, económicos, culturais, religiosos e outros, resulta de uma construção social com fins analíticos, diferenciadores, classificadores e muitas vezes também discriminatórios.
Nesta lógica a categoria social do velho, do idoso, da terceira idade, da quarta idade, assenta em outras construções sociais resultantes de diferentes sistemas culturais, não havendo uniformidade conceptual, mas antes, múltiplas visões fundamentadas no percurso histórico de cada cultura, no sistema de organização social de cada Estado-Nação e também na classe social de cada pessoa.
Por exêmplo, em França no século XIX os “velhos” vieux eram os que não possuiam estatuto social, os despossuidos de bens, os indigentes, enquanto os idosos, vieillard eram os abastados, bons cidadãos, bons pais.
A distinção, passava sobretudo pelo estado de miséria resultante de uma grande maioria que viveu da venda da força do seu trabalho, cujo rendimento apenas dava para repôr as energias e voltar a trabalhar, e, de outros, que tinham fortuna e fontes de rendimento sem utilizar o esforço do próprio corpo para viver, mas igualmente sujeitos ao ciclo biológico, que nenhuma riqueza ainda até hoje conseguiu contrariar, a não ser na diferenciação de vivência do ambiente circundante e na qualidade de cuidados prestados a uns e outros, o que indubitavelmente faz uma grande diferença ao nível da qualidade de vida.
Foi sobretudo nos anos 60 do século XX, com o direito a pensões de reforma mais elevadas, que se altera a conotação negativa de velhice, para uma menos esteriotipada de “idoso”.
Surge assim o debate sobre a adequação do conceito. Para Lenoir (1984), o termo velho é mais preciso e o de idoso talvez mais respeitoso continuando ainda a ambiguidade baseada sobretudo na classe social.
Com os rendimentos resultantes dos direitos a pensões nos países onde o Estado Providência se tinha desenvolvido, surge sobretudo em França, a unificação das idades através da classificação de “aposentado” dividindo-se a terceira idade entre os jovens idosos até aos 75 anos e a 4ª. Idade a partir dos 75 anos.
A pensão de reforma era a garantia de cobertura de todo o tipo de necessidades.
Assim, a velhice antes vista a preto e branco, tal como Goya (1746-1828) a retrata no quadro “Dois velhos comendo”, adquire, com o direito a um rendimento correlacionado com o tempo de trabalho e a remuneração auferida, um novo colorido e uma nova arte de viver, advindo daí necessidades próprias de dieta alimentar, exercícios físicos, actividades culturais e novas aprendizagens, sendo a Universidade da Terceira Idade um exêmplo de capacidades a desenvolver, traduzidas no “envelhecimento activo”, independente, dinâmico, dando sentido a uma nova fase da vida, muitas vezes com domínio do quotidiano, como projecto autogerido em liberdade de escolha própria, e da oferta proporcionada pelos equipamentos e serviços próprios bem como pelo mercado.
Mesmo assim, neste novo contexto, coexistem as desigualdades sociais, onde as pensões mínimas suportam o que é mais básico e as instituições públicas e privadas complementam outras dimensões inerentes à pessoa humana.
Ainda hoje o ser velho, idoso, ou de terceira ou quarta idade, tem um significado polissémico, onde, por um lado, a continuação normal da sociabilidade, a actividade em proveito próprio, ou de utilidade social, e, por outro lado, a solidão, o isolamento, o ostracismo podem ter razões alicerçadas não apenas em vidas pessoais e familiares do passado, mas também na cultura de cada povo e no caso das sociedades ocidentais na alteração da noção de “responsabilidade individual” para a de “responsabilidade social”, o que se constituíu como uma garantia de direitos, embora reflectindo as desigualdades existentes na designada vida produtiva.
*Assistente Social, Doutoranda Serviço Social, Docente da ULHT - Lisboa
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