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Assistente Social - Percursos e Construção Identitária

Este texto tem como eixo central o interesse pela compreensão dos percursos e do processo de construção identitária dos Assistentes Sociais, a partir de uma perspectiva fenomenológica. ...

Isabel Passarinho - Assistente Social na Câmara Municipal de Cascais – Divisão de Intervenção Educativa e Acção Social Escolar e doutoranda em Ciências da Educação, na área de especialização em Formação de Adultos.

 Este texto tem como eixo central o interesse pela compreensão dos percursos e do processo de construção identitária dos Assistentes Sociais, a partir de uma perspectiva fenomenológica.
A investigação que lhe dá suporte, procura produzir conhecimento sobre a formação (com especial enfoque na autoformação) de Assistentes Sociais, procurando identificar os seus percursos profissionais, os significados que lhes atribuem e quais os processos das suas construções identitárias. No âmbito desta investigação, ainda em curso, foi desenvolvido um trabalho empírico, de carácter exploratório, com entrevistas de inspiração biográfica a três profissionais seniores. Em simultâneo, tenta-se equacionar a institucionalização do Serviço Social como profissão, que, tendo como referência histórica o pensamento humanitário, assume legitimação profissional plena com o estabelecimento de uma nova relação entre o Estado e a Sociedade Civil.
Na actualidade, em resultado da fragmentação provocada pela transferência de múltiplos serviços do sector público para o privado, da especialização crescente das funções dos Assistentes Sociais e do avanço para um trabalho de maior proximidade com outros profissionais, assume cada vez mais pertinência a pergunta: o que é, afinal, ser Assistente Social?
Este artigo decorre do trabalho desenvolvido no âmbito do doutoramento em Ciências da Educação, na área de especialização em Formação de Adultos. A investigação tem como questão de partida a interrogação sobre como se constroem as identidades de uma profissão e como se formam os Assistentes Sociais, ao longo da sua trajectória profissional.
Procura-se identificar e compreender o significado atribuído aos processos de formação de, e pelos, Assistentes Sociais que se encontram numa fase consolidada da sua vida e do seu percurso profissional. Esta questão centra o objecto de pesquisa na reflexão sobre as pessoas e os seus contextos, assumindo-se a “perspectiva de recolocar o sujeito no lugar de destaque que lhe pertence quando desejar tornar-se actor que se autonomiza e que assume as suas responsabilidades nas aprendizagens e no horizonte que elas abrem” (Josso, 1989, p.49). Sendo eu própria Assistente Social e assumindo-me como “pratica/investigadora”, não posso esquecer que o desenvolvimento da investigação é um fenómeno que, tendo implicações práticas, metodológicas e epistemológicas, tem fundamentalmente um significado social.
O problema da participação na investigação corresponde de facto a uma revolta de “uma espécie de classe média no domínio das práticas sociais” (Berger, 1992, p. 25) que se recusa a ver elaborar à sua margem um saber que a trata como objecto, e que, em consequência desta revolta, procura transformar-se em investigadora de si própria.
Conceber os assistentes sociais como sujeitos passou por coloca-los no lugar central da sua própria formação permanente, no entendimento de que todos os espaços/tempos são potencialmente formativos. E procurar entender as suas perspectivas sobre os seus próprios processos de formação e de construção identitária, talvez possa contribuir para conhecer melhor que quadros de referência utilizam quando intervêm com as respectivas populações e como justificam o seu trabalho (para si, para os outros e para a sociedade em geral).
Assim, as questões que orientam a investigação em curso não são estranhas ao meu próprio processo de autoconhecimento e de auto formação, alimentado na dinâmica entre a estabilidade, o incómodo e a mudança. Que ligações estabelecem os Assistentes Sociais entre os saberes teóricos e os saberes da prática? Ou seja, qual o relação com o saber académico? Que perspectivas sobre a interacção entre a formação inicial, a formação contínua formal e as aprendizagens experienciais e organizacionais? Como se constrói uma “reflexividade crítica” no profissional e na profissão? Ou seja, como se processa a “conquista do tempo pessoal” e a “transformação de perspectivas”? Como se forma a profissionalidade e a identidade profissional destes profissionais? Ou seja, quais as competências construídas — em que tempos, processos e contextos? Qual a relação do domínio profissional com o domínio familiar? E no “fim” do seu ciclo de vida profissional — que balanços, que crises e que projectos? A pesquisa já realizada aprofundou a problemática do campo profissional onde se situa o Serviço
Social, nomeadamente as suas evoluções e paradoxos e o modo como se relaciona com a Formação de Adultos, na linha da Educação Permanente. Do ponto de vista metodológico, fez-se um percurso onde o ponto de partida foi o de pesquisar referenciais que permitissem uma ancoragem, a partir da qual seria possível definir uma estratégia metodológica.
O trabalho empírico, ainda de carácter exploratório, permitiu fazer a análise das entrevistas de inspiração biográfica, como instrumento de reconstrução das identidades narrativas.
A concepção de identidade que orienta esta reflexão perspectiva a acção humana como algo que se constrói na comunicação frente a frente, com os outros, e não estritamente comandada pelas normas e valores sociais impostos, reconhecendo a participação activa dos sujeitos na construção da sua identidade.
As características do trabalho social explicam, em parte, a dificuldade estrutural que os assistentes sociais têm em descrever o que fazem, dificuldade que se relaciona com a construção das práticas, nas quais a construção do objecto se encontra profundamente ligada às estratégias de acção. As actividades do Serviço Social desenvolvem-se no registo da relação (Dubet, 2002) e da linguagem. Enquanto prática simbólica, a sua acção inscreve-se na articulação de quatro domínios, identificados por Autés (1999, p. 246), “subjectividade, identidade, palavra, vínculo social: o trabalho social encontra-os no limite”.
Sendo o campo profissional do Serviço Social atravessado por paradoxos, controvérsias e alguma constância entre um humanismo cristão e uma “crítica anticapitalista romântica”, será, cada vez mais importante alimentar a reflexão, quer sobre as suas narrativas históricas, quer sobre os fins e os meios utilizados, bem como sobre as suas implicações, tanto para a sociedade, como para o corpo profissional.
Sábado, 1 de Novembro de 2008
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