Se, por hipótese, todos os rendimentos fossem multiplicados por 10, o limiar subia para 4.000 euros e ainda assim os portugueses pobres seriam os mesmíssimos 18%. Ou seja, o mal não está nos 18% mas nos 400 euros. Uma visão alargada a outros países permite compreender melhor.
Conceito de limiar de pobreza é relativo e convencional. Traduz o valor de 60% da mediana do rendimento disponível e, entre nós, corresponde a cerca de 400 euros por mês e envolve 18% da população, números de 2007.
Se, por hipótese, todos os rendimentos fossem multiplicados por 10, o limiar subia para 4.000 euros e ainda assim os portugueses pobres seriam os mesmíssimos 18%. Ou seja, o mal não está nos 18% mas nos 400 euros. Uma visão alargada a outros países permite compreender melhor. O nosso limiar de pobreza estabilizou nos 18% da população - um valor abaixo do da Espanha (20%) e um pouco acima do da zona euro (17%). O país com mais pobres é a Roménia (25%). E, com mais pobres do que nós, além da Espanha, estão ainda a Itália e a Grécia. Mas atenção: o "pobre" português não é igual ao "pobre" espanhol - a diferença de rendimentos é abissal.
Associada aos rendimentos está a distribuição, e aqui as novidades não são melhores. Dividindo os 20% mais altos pelos 20% mais baixos, obtemos o valor de 6,1 - o mais alto da União Europeia, com excepção da Roménia (7,8). Na Espanha o valor é de 5,3 e a média da zona euro é de 3,9. Os países com uma distribuição mais equilibrada são a Suécia, a Eslovénia e a Eslováquia. Os números são desconfortáveis e só vejo uma forma de os diluir: a via fiscal. Voltando aos pobres, importa referir que somos apenas 18% devido às acções sociais. Sem elas seríamos 25%. E aqui ganham força a melhoria do salário mínimo e o complemento solidário para idosos. Talvez por isso Sócrates fale agora num novo subsídio para as famílias "cujos rendimentos ‘per capita' estejam abaixo do limiar de pobreza". Fico com dúvidas: está a pensar na média ou na mediana? No total ou em 60%? A preços de 2007 ou de 2010?
A forma como os políticos se referem ao limiar de pobreza leva-me a presumir que não entenderam o conceito. Haver 18% de pobres, na acepção que lhe foi dada, é pacífico. O que choca são os 400 euros que os delimitam. Se me pedissem um título para um programa de Governo escolheria este: crescer mais e distribuir melhor. Sem esquecer os pobres dos pobres, os que estão no fundo do poço, que só sobrevivem com acções sociais.
Por detrás das políticas estão as pessoas.
d.amaral@netcabo.pt
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Daniel Amaral, Economista
Fonte: http://economico.sapo.pt/noticias/a-pobreza_65859.html
Quarta-feira, 29 de Julho de 2009