Câmara Municipal do Barreiro
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Mérito Municipal Prata a 28 de Junho de 2006

A Familia como Entidade Cuidadora

Desde que a vida existe há cuidados, pois torna-se necessário tomar conta da vida para que esta possa permanecer (Pereira, 2008). O próprio significado etimológico da palavra cuidar, aponta nesse sentido, pois deriva da palavra latina cogitare, que significa “agitar no espírito, resolver no pensamento, pensar, apresentar pelo espírito, meditar (...) ” (Machado, 1977, p. 263).


Desde que a vida existe há cuidados, pois torna-se necessário tomar conta da vida para que esta possa permanecer (Pereira, 2008). O próprio significado etimológico da palavra cuidar, aponta nesse sentido, pois deriva da palavra latina cogitare, que significa “agitar no espírito, resolver no pensamento, pensar, apresentar pelo espírito, meditar (...) ” (Machado, 1977, p. 263). As práticas de saúde instintivas foram as primeiras formas de prestação de assistência. Numa primeira fase da civilização, estas acções garantiam ao Homem a manutenção da sua sobrevivência, estando na sua origem, associadas ao trabalho feminino, caracterizado pela prática do cuidar nos grupos nómadas primitivos, tendo como referência as concepções evolucionistas e teológicas (Conselho Regional de Enfermagem do Rio de Janeiro, 2001, cit. por Damásio, 2006).
As necessidades de cuidados variam ao longo do ciclo de vida (Collière, 1989). À medida que o indivíduo progride no ciclo de vida, sofre influências e alterações. Todos os aspectos da vida são influenciados pela evolução física, psíquica, intelectual, emocional e social (Roper, Logan e Tierney, 1993). É essencialmente no início e no fim da vida que a necessidade de cuidados está aumentada (Collière, 1989).
Em todas as intervenções do cuidado há um interesse e preocupação com o bem-estar de outra pessoa, conduzindo este objectivo ao desenvolvimento de determinadas acções (Pereira, 2008). O cuidar e os cuidados são essenciais à sobrevivência dos homens, bem como para o seu crescimento, saúde, bem-estar, cura e capacidade de lidar com as deficiências e morte (Leininger, 1998). Cuidar é também um acto individual que se presta a si próprio quando se tem autonomia, mas também um acto de reciprocidade, que se presta a toda a pessoa que temporária ou definitivamente necessite de ajuda para a satisfação das suas necessidades vitais (Collière, 1989).
A família é a instituição social fundamental que reúne pessoas relacionadas por nascimento ou por escolha num domicílio ou numa unidade doméstica. A família é o meio onde o comportamento de saúde e as decisões de saúde são, inicialmente, determinados. “A família é a unidade básica da sociedade, com direito à protecção e apoio integrais e deve ser consolidada” (Organização Mundial de Saúde, 2003, p. 4).
No contexto sócio-cultural a família assume um papel essencial, sendo a unidade básica em que nos desenvolvemos e socializamos. É na família e com a família que cada pessoa procura o apoio imprescindível para ultrapassar os momentos de crise que surgem ao longo da vida (Pereira, 2008).
Fruto das mudanças sociais têm surgido novas formas de vida em família. Esta tem vindo a demonstrar ter uma vitalidade excepcional e capacidade de adaptação. As famílias são o reflexo da comunidade onde estão inseridas e são a primeira instância da educação dos seus membros em relação a comportamentos de boa saúde a seguir ou comportamentos de risco a evitar ou modificar (Organização Mundial de Saúde, 2003). Contudo, a família mantém-se como unidade emocional e afectiva caracterizando-se essencialmente pelas suas dimensões psicológica e social, relacionadas também com a aprendizagem de comportamentos de saúde (Martins, M., 2002).
O aumento da longevidade nem sempre é sinónimo de uma vida funcional, independente e sem problemas de saúde. Em oposição, o número de pessoas com perda de autonomia, invalidez e dependência não pára de aumentar, resultado da maior prevalência de doenças crónicas e incapacitantes. Há necessidade de um maior apoio consistente e integrado a estas pessoas, tanto pelos profissionais de saúde, como pelos seus familiares. Estes são, cada vez mais, chamados e orientados para participar na continuidade da prestação de cuidados, passando a desempenhar o que até então era papel dos profissionais de saúde (Santos, 2004), surgindo assim com as suas necessidades enquanto cuidador.

Autor - Carla Piscarreta Damásio
Professora de Enfermagem na Escola Superior de Saúde da Universidade do Algarve
Referências Bibliográficas
COLLIÈRE, M. F. (1989) Promover a Vida. Lisboa: Sindicato dos Enfermeiros Portugueses.
DAMÁSIO, C. S. S. P. (2006) Prática Clínica e Regresso à Escola. Reflexões sobre trajectórias formativas no âmbito do Curso de Complemento de Formação em Enfermagem. Dissertação de Mestrado em Ciências da Educação, área de Especialização Formação de Adultos. Lisboa: Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Lisboa.
LEININGER, M. (1998) Enfermagem Transcultural: Imperativo da Enfermagem Mundial. Baseado na conferência proferida no II Encontro de Enfermagem de Países de Língua Oficial Portuguesa. Lisboa, 8 – 10 de Outubro de 1997. In: Enfermagem Nº 10 (2ª Série) Abril – Junho, pp. 32 – 36.
MACHADO, J. P. (1977) Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa. 3ª ed. Lisboa: Livros Horizonte. Vol. II.
MARTINS, M. M. (2002) Uma crise acidental na família: o doente com AVC. Coimbra: Formasau.
ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE SAÚDE (2003) Família e Saúde. Documento proferido no 44º Conselho Director, 55ª Sessão do Comité Regional, que decorreu em Washington, 22 a 23 de Setembro de 2003. Tema 4.7 da Agenda Provisória. Documento CD44/10, de 18 de Julho.
PEREIRA, M. F. C. (2008) Cuidadores de Doentes de Alzheimer: Sobrecarga Física, Emocional e Social e Psicopatologia. Dissertação de Mestrado em Ciências de Enfermagem. Porto: Instituto de Ciências Biomédicas Abel de Salazar da Universidade do Porto.
ROPER, N.; LOGAN, W.; TIERNEY, A. (1993) Modelo de enfermeria: basado en el modelo de vida. 3ª ed. Mexico: Interamericana.
SANTOS, A. T. (2004) Acidente Vascular Cerebral: qualidade de vida e bem-estar dos doentes e familiares cuidadores. Tese de Doutoramento em Psicologia. Porto: Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto.

Quinta-feira, 8 de Outubro de 2009
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