Câmara Municipal do Barreiro
Núcleo de Voluntariado - Liga dos Amigos do Hospital Distrital do Barreiro
Instituição agraciada com a Medalha de
Mérito Municipal Prata a 28 de Junho de 2006

Reabilitação em Cuidados Paliativos- Papel do Enfº Especialista de Reabilitação

OBJECTIVO: Sensibilizar para uma metodologia de Qualidade em Cuidados Paliativos, integrando nestes a Reabilitação

Enfermeira Especialista de Reabilitação
Coordenadora da Unidade de Paliativos do CHBM
Ana Cristina Lopes

 

Até há pouco tempo, falar em Cuidados Paliativos era evocar o que era possível fazer quando a morte era eminente. Mas a experiência acumulada vem cada vez mais a apontar para outros horizontes: prestam-se já Cuidados paliativos muito antes de a morte sobrevir – agora, aqueles são prestados logo no início do curso de uma determinada doença que se reconhece como progressiva, inexorável e incurável.

Hoje, os Cuidados Paliativos centram-se na promoção do conforto, da dignidade da pessoa e na respectiva Qualidade de Vida, seja qual for a sua faixa etária, quando uma doença seja progressiva e incurável, seja qual for a fase em que se encontre, sempre que não haja qualquer hipótese de recuperação completa. Na evolução das doenças crónicas, progressivas e incuráveis, o comprometimento das capacidades motoras e funcionais tem um impacto considerável na Autonomia e na Qualidade de Vida.

Por seu turno, a Reabilitação constitui hoje um conceito abrangente, que ultrapassa em muito a adaptação ou a recuperação de uma incapacidade motora ou funcional.

Actualmente, a Morte é assumida como uma componente do normal processo da Vida e tendo a Reabilitação, como objectivo principal, a actividade humana, a qual está presente ao longo de todo este percurso, o Enfermeiro de Reabilitação lançará mão de diversos recursos para estruturar o dia-a-dia do doente, a fim de lhe possibilitar uma participação activa e efectiva na sua própria vida, tentando preservar as suas capacidades remanescentes, minimizar as consequências dos défices causados pela doença e criar um ambiente favorável à sua interacção social. Respeitando os princípios e filosofia dos cuidados paliativos:

 

1.             Controlo de sintomas

2.            Comunicação Adequada

3.            Apoio à família

4.            Trabalho em Equipa

 

As nossas preocupações como Enfermeiros de Reabilitação passam cada vez mais por possibilitar ao doente o conforto e o controlo dos sintomas indesejados.

Nas situações de doença incurável e terminal, o Enfermeiro de Reabilitação deve oferecer os cuidados sem se empenhar em acções diagnósticas ou terapêuticas, que podem constituir-se como academicamente interessantes mas que, por inúteis ou obstinadas, em nada contribuem, muito pelo contrário, para a consecução das necessidades ambientais e sociais dos doentes.

Os Cuidados Paliativos regem-se hoje por princípios fundamentais, que o Conselho da Europa enunciou em 2005:  

- Os Cuidados Paliativos visam assegurar aos doentes condições que os capacitem e os encorajem a viver as suas vidas de uma forme útil, produtiva e plena até ao momento da sua morte. A importância da Reabilitação, em termos de bem-estar físico, psíquico e espiritual, não pode ser negligenciado.

- Os Cuidados Paliativos visam oferecer um sistema de Apoio que ajude os doentes incuráveis a viver tão activamente quanto possível, até ao momento da sua morte.

- Os Cuidados Paliativos obrigam a uma abordagem em equipa multidisciplinar.

É por demais evidente que não é possível preparar profissionais que se bastem a si mesmos na prestação de cuidados tão complexos como o são os Cuidados Paliativos. Aqui, por maioria de razão, é necessária uma equipa multidisciplinar, que integre um Enfermeiro de Reabilitação. A ele cabe avaliar o impacto da doença na actividade do doente, nos efeitos produzidos sobre as suas aptidões, nas suas capacidades em se auto-cuidar e no exercício do lazer.

Um Enfermeiro de Reabilitação integrado numa Unidade de Cuidados Paliativos deve ocupar-se em que as incapacidades sejam abordadas no sentido de minimizar o seu impacto nos gestos diários, na integração familiar e social e nas actividades lúdicas que dão sentido á vida.

A consideração das necessidades físicas, psicológicas, sociais e espirituais de cada doente e dos que lhe são próximos, permite distinguir entre o aspecto redutor do sofrimento e a libertação que respeita a dignidade do ser humano perante a etapa final da sua vida.

A Reabilitação Paliativa tem como objectivo a melhoria da Qualidade de Vida dos doentes, aliviando os sintomas, promovendo a sua independência funcional ou adaptação à deficiência resultante da doença ou sequelas. A Autonomia ou independência são factores determinantes na percepção que cada um tem da sua Qualidade de Vida.

Como profissionais de saúde é importante pensarmos no significado das nossas acções, pois é o significado que determina a dimensão do fazer e do cuidar, tornando-se o significado que é dado ao fazer, uma arte. Na saúde é preciso fazer compaixão ou melhor fazer com “paixão”, pois esse fazer é uma forma de arte, é belo em si. A “ ajuda” o “cuidar” não são um simples fenómeno do senso comum enraizado nas boas intenções de quem ajuda.

Ser Enfermeiro de Reabilitação requer uma autêntica vocação pessoal, não se prestando só com a técnica mas com sensibilidade e afecto. Em Paliativos embora não deixe de ser importante a vigilância e a oferta de tratamentos adequados, é muito importante um simples olhar ou gesto carinhoso. A generosidade e a dedicação estão para além da técnica. Os direitos do doente são uma exigência de justiça. Não temos que trabalhar por e para o doente, mas com este.

Cabe a nós perceber o doente como pessoa humana diante da sua maior limitação: o fim da vida. Esse confronto pelo qual todos nós passaremos requer humanidade, carinho e amor.

  REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Abiven, M. (1997). Para uma morte mais humana. 2ª ed. Loures: Lusociência.

Castro-Caldas, A., & Mendonça, A. (2005). A doença de Alzheimer e outras demências em Portugal. Lidel, Edições Técnicas, Lda

 Frias, C. F. C.(2003). A Aprendizagem do cuidar e a morte: um desígnio do enfermeiro em formação. Loures: Lusociência.

 Hennezel, M.(1998). A arte de morrer. 1ªed. Lisboa: Editorial Notícias

 Hennezel, M.(2002) Diálogo com a morte. 5ª ed. Lisboa: Editorial Noticias.

 Kübler-Ross, E.(1998). Sobre a morte e o morrer. 8ªed. São Paulo: Livraria Martins Fontes Editora Lda

 Rinpoche, S. (2004). Livro Tibetano da Vida e da Morte. 8ªed. Edições Talento

SFACP (2000). Desafios de Enfermagem em Cuidados Paliativos. Cuidar: Ética e Práticas. Loures: Lusociência.

 Twycross, R.(2003). Cuidados Paliativos. 2ªed. Lisboa: Climepsi Editores.

 

Sexta-feira, 23 de Setembro de 2011
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